segunda-feira, 6 de junho de 2016

SOBREVIVER EM SETÚBAL


Durante o mês de Junho Setúbal tem uma belíssima festa em 17 lugares/exposições de cores e significados. Uma rara concentração de tantos ilustradores portugueses, exposições ricas e mesmo surpreendentes. Boa gente. O meu trabalho ali presente é sobre refugiados, uma parte aqui agora publicada. Estas figuras são a preto, branco e vermelho e vão para além dos refugiados dos barcos, dos mares, que nestes anos horríveis morrem afogados e afundados aos milhares. Estes aqui mostrados são aqueles que apanham porrada e são humilhados nas fronteiras terrestres da Europa e mesmo dentro dos países do Leste Europeu. Procuram testemunhar, ilustrar, pressagiam situações ainda mais horríveis, em grande parte derivadas das políticas vergonhosas hoje adoptadas e seguidas pela comunidade europeia e por uma boa parte dos países europeus e pela Turquia. Esta questão está longe de ficar parada no próximos tempos, as verdadeiras informações que nos chegam, outras que nos escondem, ou que são destiladas com conta-gotas, sugerem violências vergonhosas, humilhações, direitos humanos sistematicamente violados. 





http://www.festailustracaosetubal.pt/festaIlustracao/ilustrador/joao_azevedo/




refugiado ameaçado de pancada







refugiado agredido pelas costas






Refugiado rasteirado por jornalista húngara







domingo, 26 de abril de 2015

Convite


Apresentação dos ícaros, do Zeca, minha

ALGUMA APRESENTAÇÃO, DOS ÍCAROS E MINHA

A capa do disco Com as Minhas Tamanquinhas foi desencadeada por um telefonema do Zeca para mim, então em Roma, trauteando os primeiros versos: “A fadiga é um dom da natureza, Chiça!”. Foi com estes primeiros versos trauteados ao telefone que, comovido pelo convite a fazer essa capa, me desenvencilhei, como pude, trabalhando sobre o mito do Ícaro, da Utopia. Utopia andante, que era como eu via a revolução em curso, um convite a sonhar mais alto, pisar o impossível, acreditar nisso, como em tantos, nós acreditávamos. Esta capa vem daí: sonhar alto, sonhar mais longe.
Desde há muitos anos, desde a minha mais tenra adolescência, que para mim o Zeca era um peixe graúdo do nosso povo português, um corajoso que pela poesia e pelo canto nos encorajava. No tempo do salazarismo ela era, com a sua voz de rouxinol, um ícaro, que voava alto. Mais tarde apercebi-me, conhecendo-o, que era também um teso, um comité central dele próprio, quando percebi em profundidade como não se deixou envenenar nas tricas do pós-25 de Abril, que tanto dividiu o nosso povo. A doença vergou-lhe o corpo, a voz, mas não o espírito; a prova disso é que ele é ainda um peixe graúdo do nosso povo. No dia do seu funeral eu vivia em Maputo, para onde fui trabalhar também à pala do Zeca. Organizámos uma bela jantarada, como se estivéssemos com ele, mas sem ele.
Custou-me imenso, nestes últimos meses, voltar à capa de As Minhas Tamanquinhas. Sempre considerei esta capa como o meu melhor cartão-de-visita, sempre à boleia do Zeca, e com ele me comovo ainda hoje, como peixe miúdo do nosso povo que sou. Comecei a trabalhar nisso, punha a música dele e não resistia a chorar. Eram as ondas da voz e da música que me esmagavam. Avancei nestes trabalhos evitando a sua música e sua voz, batendo-me sozinho e em silêncio. 

O resultado, sempre à boleia do Zeca, está nesta exposição. Aqui se encontram também ícaras, mulheres voando, porque se bem me lembro no tempo passado os ícaros eram sempre homens, pai e filho, não havia mulheres. Agora já há, ou passaram a existir, depois do 25 de Abril, como na canção da Teresa Torga. Pelo menos a isso chegámos, depois do 25 de Abril. 

Um texto do Hipólito dos Santos para e exposição dos ícaros na Casa da Cultura de Setúbal

Maluquinho dos Ícaros

O João tem um atributo essencial para toda a pessoa que se preze e para todo o artista, artista – a Inquietação!
Tudo o que se passa no mundo e na sociedade, no seu todo e nas suas dimensões mais micro, a nível pessoal e político, social, ambiental, educativo, artístico é objecto da sua inquietação. A busca permanente da liberdade faz parte desse universo de inquietação. A liberdade individual como a colectiva. E isso não é fácil para ninguém e menos ainda para um artista que não tem um mecenas em si ou nas proximidades.
Com efeito, liberdade e sobrevivência tornam-se, por vezes, contraditórios. Sobreviver com dignidade é um labirinto do qual só é eventualmente possível escapar com a ajuda da imaginação, de ferramentas, sejam elas um parapente, um drône (não dos que matam), ou de algo mais lúdico, o mitológico Ícaro.
Na sua luta para subsistir, Azícaro por vezes vê-se obrigado a descer à terra, assentar bem os pés nela mobilizando a sua muita imaginação para não se deixar engolir na voragem duma realidade aceite como normal nas suas múltiplas descriminações. Encontra então o “mau desenvolvimento”, os imigrantes sem esperança, em embarcações apinhadas, a Revolta de Beja e os Vascos de Carvalho presos e ou assassinados, as manigâncias dos “ratios” dos eurogrupos ou das nações unidas.
Mas o Ícaro aparece sempre para o libertar, mesmo que momentaneamente, nem que seja necessário reforçar o dispositivo das asas para permitir uma mais duradoura libertação ou amar em maior segurança. As emblemáticas Tamanquinhas duram, durarão eternamente, suspensas dum Ícaro que também libertou o Zeca do realismo duma esquerda já então senil.
O João Azícaro foi meu mestre, sendo eu seu chefe. Foi o seu retorno à terra, em Moçambique ou na Torre Bela, a capacidade de aprender com os mais velhos, mas abrindo às asas de uma fantasia tecnológica mais avançada, que me trouxe o conhecimento indispensável, que não tinha, para dirigir um projecto e, assim, conseguir gerar esperanças de uma vida melhor para muita gente.
Ele pinta, pinta quando sonha ou fala, quando cozinha, quando passeia, quando lê ou ouve música. Pintar é para ele uma maneira de viver, de se fazer entender! Aprendi muito com isso e com ele.

José Hipólito Santos

Oeiras, Abril de 2015

Um texto poema da Rosa Azevedo para a exposição dos ícaros em Setúbal

ícaros
páginas amarelas,
asas de sombra
arco-íris pausado a riscos de vinil

é um país onde as fronteiras são as histórias
os silêncios
os medos satirizados

país onde a cadência é só literatura
e a literatura músicas que se decoram por não se poderem dizer

humanos latentes, ícaros sem limites
num país em versos onde os sons nunca se retraem

é uma música imperfeita
memorizada

não há rimas na poesia nem nas ruas desempedradas
não há versos indiscutíveis

não há cadências suaves

há só cadáveres esquisitos porque nenhuma linha começa sem outra linha lhe ter pedido auxílio

é assim o segredo da canção
dos ícaros
dos quadros
do incansável passar dos anos

a única linha imutável, a que tem sempre duas vozes que não se podem distinguir

Rosa Azevedo, Abril 2015


Um texto do Fernando Cabral Martins para a exposição dos ícaros

EXORCISMO


À primeira vista, estes anjos são terrenos. Começam por não ser anjos, porque os ícaros são seres humanos. Mas passaram por uma metamorfose em anjos. As asas já fazem parte do seu corpo, o voo e a queda tornaram-se uma dança de cores. E têm sexo, estes anjos que são mulheres e homens. A melancolia, por isso, não os atinge. Reina entre eles uma saudável loucura, uma alegria desatada. Habitam uma versão floresta-virgem do paraíso, isto é, daquele mundo aonde sobem os homens que se tornam imortais quando voam.  

Se revirmos os anjos do disco de José Afonso que João de Azevedo pintou nos anos 70, Com as Minhas Tamanquinhas, percebemos que eles eram uma imaginação feliz, porque então tudo fazia sentido. Hoje, os ícaros estão remontados, é como se tivessem voltado a voar depois de se terem despedaçado no chão. A sua energia é extraordinária mas sem esperança. Os ícaros transformam-se sempre que caem. Voam, mudam, caem, tornam a levantar voo e mudam outra vez. E as cores voam com eles.
Pintar ícaros é pintar a aventura essencial, pelo que as suas são as cores puras. No teatro das operações de busca do que não existe – e, portanto, não se pode encontrar –, o que é importante é a pureza das cores e do movimento.
Os anjos-ícaros de João de Azevedo estão ampliados, fora de foco. As suas cores transtornadas espantam e exaltam, e a sua explosão é uma libertação. Há uma violência qualquer que as arrasta – nós sentimos-lhe o rumor, o tremor. No mundo à volta das pinturas também não há mais nada a não ser uma persistente violência. Estamos sob uma redoma de protecção, que é muito parecida com um cogumelo atómico. Ninguém faz ondas demais, para que alguém não resolva usar a bomba suja. Daquelas que rapam um bocado do planeta. Mas esta redoma sugere um adormecimento da pulsão de morte, à escala colectiva e permanente. E ninguém sabe se tal coisa é possível, não parece nada, porque a violência progride sempre até ao limite. Ainda agora, pelo youtube, as cores mais fortes, o laranja, o preto, esfaqueiam a plena luz do deserto.

Estes homens e mulheres alados são a apoteose de uma experiência da actualidade. Não lhes interessa a moral, que é aquele conjunto de regras que servem para nos defendermos do que é obscuro e instável. Para a sua inteligência, a queda é a única moeda que paga o voo. 
Afinal, isto pode ser trágico, mas – deve ter sido o que Ícaro ele-próprio pensou enquanto caía no mar – um instante no cimo do mundo é mais do que um século em cima dos pés.
Estes anjos convocam a violência das cores como o último exorcismo.


Fernando Cabral Martins, Lisboa, Abril 2015

Um dos ícaros para a Casa da Cultura de Setúbal 10 de Maio 2015


O texto do Yves Depelsenaire

Notas para Ícaro

O texto de Ovídio (Metamorfoses, VIII, 185-235) nunca deixou de inspirar pintores e escultores da antiguidade aos nossos dias. Bruegel, Hans Bal, Goltzius, Rubens, Leonard, Saraceni, Do Sanfriano, Canova, Le Brun, Rodin, Chagall, Picasso, Matisse, Kiefer…
Este tema parece omnipresente na arte cristã, anjos, putti, querubins, serafins, anjos que tocam, anjos que anunciam, anjos rebeldes, anjos caídos.

O Eros grego, ou a Nike, que os romanos chamaram Victória (como a de Samotrácia) são também eles representados com asas. Há na arte um “combate com o Anjo”, ininterrupto.
O Angelus Novus de Paul Klee, acarinhado por Walter Benjamin, é o paradigma da modernidade, com a tempestade catastrófica do progresso que lhe sopra sobre as asas e o faz ficar de costas voltadas ao futuro.

Quando, no fim dos anos 70, João de Azevedo representa as asas do anjo nas duas páginas da capa do disco de José Afonso, essas asas representam as asas do desejo. As asas da revolução dos cravos. Traçam um arco que vai do Teorema de Pasolini em 1968 ao filme epónimo de Wim Wenders em 1987.

Hoje tememos para elas a mesma sorte das asas de Ícaro, derretidas pela sua própria chama. Como? Sucumbirão as asas do desejo demasiado cedo, como diria Mallarmé?
Não há no entanto outro caminho para se sair do labirinto do progresso, onde toda a humanidade se encontra encarcerada com Dédalo.
Não estará na pintura de João de Azevedo o sentido mais profundo do regresso dessas mesmas asas?


Yves Depelsenaire, Bruxelas, Abril 2015

O texto do Yves Depelsenaire para o jornal da exposição sobre os Ícaros na Casa da Cultura em Setúbal (en français)

Notes pour Icare
Le récit d’Ovide  (Métamorphoses, VIII, 185-235) n’a pas cessé d’inspirer peintres et sculpteurs de l’Antiquité jusqu’à nos jours. Bruegel, Hans Bal, Goltzius, Rubens,  Leonard, Saraceni, Do Sanfriano, Canova, Le Brun, Rodin, Chagall, Picasso, Matisse, Kiefer,…
Ce thème croise celui, omniprésent dans l’art de la Chrétienté, des anges, puttos, chérubins, séraphins, anges musciens, anges annonciateurs, anges rebelles, anges déchus, …
L’Eros grec, ou la Niké  (comme celle de Samothrace) sont représentés avec des ailes eux aussi. Il y a dans l’art un “combat avec l’Ange” qui ne cesse pas de se poursuivre.
L’ Angelus Novus de Paul Klee, cher à Walter Benjamin,  en est le paradigme dans la modernité, avec la tempête  catastrophique du progrès soufflant dans ses ailes et lui maintenant le dos tourné à l’avenir.
Quand,  fin des  années 70, João de Azevedo déploie largement des ailes d’ange sur la double page du disque de José Afonso, ce sont les ailes du désir. Celui de la Révolution des oeillets. Elles tracent un arc qui va du “Théorème” de Pasolini en 68 au film éponyme de Wim Wenders en 87.
On redoute aujourd’hui pour elles le sort de celles d’Icare, fondues à leur propre flamme.
Quoi? , l’aile du désir toujours trop tôt retombe, comme disait Mallarmé ?
Il n’est pas cependant d’autre voie pour s’extraire du labyrinthe du progrès, où c’est toute l’humanité qui s’y trouve emprisonnée avec Dédale. N’est-ce pas le sens profond du retour de ces ailes aujourd’hui dans la peinture de João de Azevedo ?

Yves Depelsenaire, Mars 2015

Um Ícaro novo para a Casa da Cultura de Setúbal (10 de Maio 2015)