ALGUMAS IMAGENS E MAIS ALGUMAS COISAS, QUANDO CALHAR contacto: azevedo68@hotmail.com
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Ecos da exposição em Maputo (Maio 2018)
https://revistacaliban.net/as-itiner%C3%A2ncias-de-jo%C3%A3o-croco-de-azevedo-dfde9c59537f
segunda-feira, 23 de abril de 2018
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
segunda-feira, 6 de junho de 2016
SOBREVIVER EM SETÚBAL
Durante o mês de Junho Setúbal tem uma belíssima festa em 17 lugares/exposições de cores e significados. Uma rara concentração de tantos ilustradores portugueses, exposições ricas e mesmo surpreendentes. Boa gente. O meu trabalho ali presente é sobre refugiados, uma parte aqui agora publicada. Estas figuras são a preto, branco e vermelho e vão para além dos refugiados dos barcos, dos mares, que nestes anos horríveis morrem afogados e afundados aos milhares. Estes aqui mostrados são aqueles que apanham porrada e são humilhados nas fronteiras terrestres da Europa e mesmo dentro dos países do Leste Europeu. Procuram testemunhar, ilustrar, pressagiam situações ainda mais horríveis, em grande parte derivadas das políticas vergonhosas hoje adoptadas e seguidas pela comunidade europeia e por uma boa parte dos países europeus e pela Turquia. Esta questão está longe de ficar parada no próximos tempos, as verdadeiras informações que nos chegam, outras que nos escondem, ou que são destiladas com conta-gotas, sugerem violências vergonhosas, humilhações, direitos humanos sistematicamente violados.
http://www.festailustracaosetubal.pt/festaIlustracao/ilustrador/joao_azevedo/

domingo, 26 de abril de 2015
Apresentação dos ícaros, do Zeca, minha
ALGUMA
APRESENTAÇÃO, DOS ÍCAROS E MINHA
A capa do disco Com as Minhas Tamanquinhas foi
desencadeada por um telefonema do Zeca para mim, então em Roma, trauteando os
primeiros versos: “A fadiga é um dom da natureza, Chiça!”. Foi com estes
primeiros versos trauteados ao telefone que, comovido pelo convite a fazer essa
capa, me desenvencilhei, como pude, trabalhando sobre o mito do Ícaro, da
Utopia. Utopia andante, que era como eu via a revolução em curso, um convite a
sonhar mais alto, pisar o impossível, acreditar nisso, como em tantos, nós
acreditávamos. Esta capa vem daí: sonhar alto, sonhar mais longe.
Desde há muitos anos, desde a minha mais
tenra adolescência, que para mim o Zeca era um peixe graúdo do nosso povo
português, um corajoso que pela poesia e pelo canto nos encorajava. No tempo do
salazarismo ela era, com a sua voz de rouxinol, um ícaro, que voava alto. Mais
tarde apercebi-me, conhecendo-o, que era também um teso, um comité central dele
próprio, quando percebi em profundidade como não se deixou envenenar nas tricas
do pós-25 de Abril, que tanto dividiu o nosso povo. A doença vergou-lhe o
corpo, a voz, mas não o espírito; a prova disso é que ele é ainda um peixe
graúdo do nosso povo. No dia do seu funeral eu vivia em Maputo, para onde fui
trabalhar também à pala do Zeca. Organizámos uma bela jantarada, como se
estivéssemos com ele, mas sem ele.
Custou-me imenso, nestes últimos meses,
voltar à capa de As Minhas Tamanquinhas.
Sempre considerei esta capa como o meu melhor cartão-de-visita, sempre à boleia
do Zeca, e com ele me comovo ainda hoje, como peixe miúdo do nosso povo que
sou. Comecei a trabalhar nisso, punha a música dele e não resistia a chorar.
Eram as ondas da voz e da música que me esmagavam. Avancei nestes trabalhos
evitando a sua música e sua voz, batendo-me sozinho e em silêncio.
O resultado, sempre à boleia do Zeca, está
nesta exposição. Aqui se encontram também ícaras, mulheres voando, porque se
bem me lembro no tempo passado os ícaros eram sempre homens, pai e filho, não
havia mulheres. Agora já há, ou passaram a existir, depois do 25 de Abril, como
na canção da Teresa Torga. Pelo menos a isso chegámos, depois do 25 de Abril.
Um texto do Hipólito dos Santos para e exposição dos ícaros na Casa da Cultura de Setúbal
Maluquinho dos Ícaros
O João tem um atributo essencial
para toda a pessoa que se preze e para todo o artista, artista – a Inquietação!
Tudo o que se passa no mundo e na
sociedade, no seu todo e nas suas dimensões mais micro, a nível pessoal e
político, social, ambiental, educativo, artístico é objecto da sua inquietação.
A busca permanente da liberdade faz parte desse universo de inquietação. A
liberdade individual como a colectiva. E isso não é fácil para ninguém e menos
ainda para um artista que não tem um mecenas em si ou nas proximidades.
Com efeito, liberdade e
sobrevivência tornam-se, por vezes, contraditórios. Sobreviver com dignidade é
um labirinto do qual só é eventualmente possível escapar com a ajuda da
imaginação, de ferramentas, sejam elas um parapente, um drône (não dos que matam),
ou de algo mais lúdico, o mitológico Ícaro.
Na sua luta para subsistir,
Azícaro por vezes vê-se obrigado a descer à terra, assentar bem os pés nela mobilizando
a sua muita imaginação para não se deixar engolir na voragem duma realidade
aceite como normal nas suas múltiplas descriminações. Encontra então o “mau
desenvolvimento”, os imigrantes sem esperança, em embarcações apinhadas, a
Revolta de Beja e os Vascos de Carvalho presos e ou assassinados, as
manigâncias dos “ratios” dos eurogrupos ou das nações unidas.
Mas o Ícaro aparece sempre para o
libertar, mesmo que momentaneamente, nem que seja necessário reforçar o
dispositivo das asas para permitir uma mais duradoura libertação ou amar em
maior segurança. As emblemáticas Tamanquinhas duram, durarão eternamente,
suspensas dum Ícaro que também libertou o Zeca do realismo duma esquerda já
então senil.
O João Azícaro foi meu mestre,
sendo eu seu chefe. Foi o seu retorno à terra, em Moçambique ou na Torre Bela, a
capacidade de aprender com os mais velhos, mas abrindo às asas de uma fantasia
tecnológica mais avançada, que me trouxe o conhecimento indispensável, que não
tinha, para dirigir um projecto e, assim, conseguir gerar esperanças de uma
vida melhor para muita gente.
Ele pinta, pinta quando sonha ou fala,
quando cozinha, quando passeia, quando lê ou ouve música. Pintar é para ele uma
maneira de viver, de se fazer entender! Aprendi muito com isso e com ele.
José Hipólito Santos
Oeiras, Abril de 2015
Um texto poema da Rosa Azevedo para a exposição dos ícaros em Setúbal
ícaros
páginas amarelas,
asas de sombra
arco-íris pausado a riscos de vinil
é um país onde as fronteiras são as histórias
os silêncios
os medos satirizados
país onde a cadência é só literatura
e a literatura músicas que se decoram por não se poderem
dizer
humanos latentes, ícaros sem limites
num país em versos onde os sons nunca se retraem
é uma música imperfeita
memorizada
não há rimas na poesia nem nas ruas desempedradas
não há versos indiscutíveis
não há cadências suaves
há só cadáveres esquisitos porque nenhuma linha começa
sem outra linha lhe ter pedido auxílio
é assim o segredo da canção
dos ícaros
dos quadros
do incansável passar dos anos
a única linha imutável, a que tem sempre duas vozes que
não se podem distinguir
Rosa Azevedo, Abril 2015
Um texto do Fernando Cabral Martins para a exposição dos ícaros
EXORCISMO
À
primeira vista, estes anjos são terrenos. Começam por não ser anjos, porque os
ícaros são seres humanos. Mas passaram por uma metamorfose em anjos. As asas já
fazem parte do seu corpo, o voo e a queda tornaram-se uma dança de cores. E têm
sexo, estes anjos que são mulheres e homens. A melancolia, por isso, não os
atinge. Reina entre eles uma saudável loucura, uma alegria desatada. Habitam
uma versão floresta-virgem do paraíso, isto é, daquele mundo aonde sobem os homens
que se tornam imortais quando voam.
Se
revirmos os anjos do disco de José Afonso que João de Azevedo pintou nos anos
70, Com as Minhas Tamanquinhas, percebemos que eles eram uma imaginação
feliz, porque então tudo fazia sentido. Hoje, os ícaros estão remontados, é como
se tivessem voltado a voar depois de se terem despedaçado no chão. A sua
energia é extraordinária mas sem esperança. Os ícaros transformam-se sempre que
caem. Voam, mudam, caem, tornam a levantar voo e mudam outra vez. E as cores
voam com eles.
Pintar
ícaros é pintar a aventura essencial, pelo que as suas são as cores puras. No
teatro das operações de busca do que não existe – e, portanto, não se pode
encontrar –, o que é importante é a pureza das cores e do movimento.
Os anjos-ícaros
de João de Azevedo estão ampliados, fora de foco. As suas cores transtornadas espantam
e exaltam, e a sua explosão é uma libertação. Há uma violência qualquer que as
arrasta – nós sentimos-lhe o rumor, o tremor. No mundo à volta das pinturas
também não há mais nada a não ser uma persistente violência. Estamos sob uma redoma
de protecção, que é muito parecida com um cogumelo atómico. Ninguém faz ondas
demais, para que alguém não resolva usar a bomba suja. Daquelas que rapam um
bocado do planeta. Mas esta redoma sugere um adormecimento da pulsão de morte,
à escala colectiva e permanente. E ninguém sabe se tal coisa é possível, não
parece nada, porque a violência progride sempre até ao limite. Ainda agora, pelo
youtube, as cores mais fortes, o laranja, o preto, esfaqueiam a plena luz do
deserto.
Estes
homens e mulheres alados são a apoteose de uma experiência da actualidade. Não lhes
interessa a moral, que é aquele conjunto de regras que servem para nos defendermos
do que é obscuro e instável. Para a sua inteligência, a queda é a única moeda que
paga o voo.
Afinal,
isto pode ser trágico, mas – deve ter sido o que Ícaro ele-próprio pensou enquanto
caía no mar – um instante no cimo do mundo é mais do que um século em cima dos
pés.
Estes
anjos convocam a violência das cores como o último exorcismo.
Fernando Cabral Martins, Lisboa, Abril 2015
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